May 2005 Archives
Qualquer forma de escravidão é abominável
Em português, as palavras que terminam em “r” fazem o plural com o acréscimo de “es”: bar/bares, mulher/mulheres, açúcar/açúcares, hambúrguer/hambúrgueres etc. Será que isso vale também para “qualquer”? Não. O caso de “qualquer” é particular. Essa palavra é composta (“qual” + “quer”) e seu plural (“quaisquer”) leva em conta exatamente o processo de formação do vocábulo: o plural de “qual” é “quais”; “quer” é verbo e não tem plural. “Não leia livros quaisquer”; “Não ande com pessoas quaisquer”.
“O seguro venceu anteontem”
“Anteontem”, “antiontem” ou “antes de ontem”? As formas “anteontem” e “antes de ontem” são absolutamente equivalentes. A escolha fica a critério de cada um. Em “anteontem”, temos o elemento latino “ante”, o mesmo de “antepenúltimo”, “antediluviano”, “ante-sala”, “antegozar”, “antebraço” etc. Esse prefixo não deve ser confundido com “anti”, que vem do grego e se encontra, por exemplo, em “anti-reumático”, “antiinfamatório”, “antiinflacionário” etc. “Ante” indica idéia de anterioridade; “anti”, de oposição.
“Descriminar” e “discriminar”
A libertação dos escravos não acabou com o preconceito racial no Brasil. Infelizmente, muita gente ainda discrimina as pessoas pela raça. E que diferença há entre “discriminar” e “descriminar”? “Discriminar” significa “separar”, “segregar”, “classificar”; “descriminar” é o mesmo que “descriminalizar”, ou seja, significa “isentar de culpa”, “absolver”. De “discriminar” se faz “discriminação”, e de “descriminar” se faz ‘descriminação”. Quando se fala de preconceito racial, portanto, fala-se de “discriminação racial”, o que, pelas nossas leis, é crime. Quem discrimina racialmente pode (e deve) ser incriminado. Moral da história: quem discrimina racialmente é punido pela lei, ou seja não é descriminado.
“Má-formação” ou “malformação”?
“Toda vez que se faz um trabalho, surge a dúvida: emprega-se ‘malformação’ ou ‘má-formação’? Eu ‘brigo’ sempre pela ‘má-formação’, pois entendo que ‘malformação’ é um dos inúmeros estrangeirismos que tentam incluir em nossa língua. Fica a pergunta: é correto usar ‘malformação’?” Essa pergunta foi feita por uma oftalmologista da UERJ. De fato a palavra “malformação” é estrangeira (vem do francês malformation), mas é registrada pelos dicionários e pelo “Vocabulário da Língua Portuguesa”. Em português, sua formação é irregular, já que o elemento “mal”, advérbio, não poderia modificar um substantivo (“formação”). Do ponto de vista da morfologia do português, “má-formação” (legítima e registrada por todos os dicionários) é melhor, já que nela se emprega o adjetivo “má” para modificar o substantivo “formação”.
“Shampoo” ou “xampu”?
Com exceção da indústria Embeleza, do Rio de Janeiro, não conheço nenhuma fábrica brasileira de xampu que grafe em português o nome desse produto. Shampoo é grafia inglesa. Aliás, a palavra vem da Índia e, na origem, significa “amassar”, “apertar”. Os ingleses a apanharam e a adaptaram ao seu idioma. Nós também já a adaptamos ao nosso sistema gráfico (“xampu”). Assim como não escrevemos football, pullover, goal, team, que, aportuguesadas, passaram a “futebol”, “pulôver”, “gol”, “time”, não há motivo para que continuemos a escrever shampoo.
“Furta-cor” ou “fruta-cor”?
Você já viu aqueles objetos que projetam uma imagem que muda de acordo com a posição. Se você vira para um lado, vê uma coisa; se vira para outro, muitas vezes vê algo impróprio para menores. Esse efeito também ocorre com outras coisas (roupas, por exemplo). Pois bem, muita gente se refere a isso empregando a expressão “fruta-cor”. Não é bem assim. É “furta-cor”. Esse “furta” é de “furtar” mesmo. No que se muda a posição, “furta-se” a cor.
Óculos escuros
O querido Raul Seixas fez sucesso com uma canção que começava assim: “Quem não tem colírio usa óculos escuros”. Por que “escuros”, e não “escuro”? Porque “óculos” é plural. Sim, “óculos” é o plural de “óculo”. Então, no lugar de “meu óculos”, “o óculos”, “este óculos”, emprega-se “meus óculos”, “os óculos”, “estes óculos”.
"Concomitante” e “concomitantemente”
O cartógrafo trabalha concomitantemente no mapa de diferentes estados. É bom começar pelo significado: o adjetivo “concomitante” significa “simultâneo” (“Os fatos são concomitantes”). Como qualquer adjetivo, “concomitante” dá origem a um advérbio de modo, com o acréscimo de “-mente”: “Os fatos ocorreram concomitantemente”. O adjetivo e o advérbio podem ser usados com as preposições “a” e “com”. Pode-se dizer que um fato é concomitante a outro ou com outro. Também se pode dizer que um fato ocorre concomitantemente com outro ou a outro.
O verbo “comunicar”
Leia esta frase: “Os jornalistas comunicaram o governador da decisão do ministro”. Que tal? Apesar de freqüente, essa frase não obedece ao padrão culto da língua. Nesse padrão, a construção que ocorre é “alguém comunica algo a alguém” (e não “alguém comunica alguém de algo”). Moral da história: a frase correta é “Os jornalistas comunicaram ao governador a decisão do ministro”. Na voz passiva, a construção padrão é “algo é comunicado a alguém” (“A decisão do ministro foi comunicada ao governador pelos jornalistas”, em vez de “O governador foi comunicado da decisão do ministro pelos jornalistas”). Em suma, como se comunica um fato a uma pessoa (e não uma pessoa de um fato), um fato pode ser comunicado a uma pessoa, mas uma pessoa não pode ser comunicada de um fato. A regência de “comunicar” certamente sofre influência da de “informar”, que admite duas construções: “informar algo a alguém” e “informar alguém de algo”. Com “informar” são possíveis duas construções (tanto na ativa quanto na passiva): “Os jornalistas informaram a decisão do ministro ao governador” (“O governador foi informado da decisão do ministro pelos jornalistas”) e “Os jornalistas informaram o governador da decisão do ministro” (“A decisão do ministro foi informada ao governador pelos jornalistas”).
O natural de Rondônia
Esse jovem Estado brasileiro deve seu nome ao de Cândido Mariano da Silva Rondon, que nasceu em 1865 e morreu em 1958. Militar, sertanista e indigenista, Rondon foi um verdadeiro desbravador do Brasil. Pois bem, o adjetivo relativo a Rondônia é rondoniense ou rondoniano, e o relativo a Porto Velho, capital do Estado, é “porto-velhense”.
O plural de “pôr-do-sol”
Já sabemos que, quando se faz o plural de uma palavra composta, o primeiro passo é definir de que tipo de composto se trata: substantivo ou adjetivo? “Pôr-do-sol” é substantivo, já que essa palavra é usada para nomear um fato da natureza. O segundo passo é verificar que elementos formam o composto. Em “pôr-do-sol”, há dois substantivos, ligados por uma preposição (“de”). É de notar que, nesse caso, a palavra “pôr” foi substantivada, tanto é verdade que dizemos “o pôr-do-sol”. Pois bem, o plural dos substantivos compostos formados por dois substantivos ligados por preposição é padrão: só varia o primeiro elemento. Veja estes exemplos: o pé-de-moleque, os pés-de-moleque; a mula-sem-cabeça, as mulas-sem cabeça; a lua-de-mel, as luas-de-mel. O plural de “pôr-do-sol”, portanto, é “pores-do-sol” (sem acento em “pores”): “São belos os pores-do-sol em Petrópolis”.
O “ês” de libanês, japonês, norueguês etc.
O adjetivo ‘libanês” diz respeito ao Líbano, assim como “norueguês” diz respeito à Noruega, e “holandês” diz respeito à Holanda. Que têm em comum essas três palavras? O processo de formação. Em todas elas existe o sufixo “-ês”, que tem origem latina e é formador de adjetivos pátrios, que nada mais são do que aqueles que indicam procedência, lugar de origem. O detalhe está na grafia: nada de “z”. Todos os adjetivos pátrios terminados em “-ês” são escritos com “s”. Também é importante lembrar que, no masculino, ocorre o acento circunflexo (“libanês” é uma oxítona terminada em “-ês” e, por isso, é acentuada graficamente). No feminino, a história muda: “libanesa” é paroxítona terminada em “a” e, por isso, não é acentuada.
O plural de “hora extra”
Apesar das conquistas que se celebram no “Dia do Trabalho” (que na verdade é o dia do trabalhador), muita gente ainda trabalha mais do que deveria. Pois bem, aquela hora que vai além do expediente normal chama-se “hora extra”, não? Como se faz o plural dessa expressão: “horas extras” ou “horas extra”? Vamos logo à resposta: “horas extras”. É interessante o caminho percorrido pelo prefixo latino “extra”, que significa “posição exterior”, “fora de”, “na parte de fora”, “à exceção de”, e está presente em inúmeras palavras: “extraterrestre”, “extra-abdominal”, “extra-humano”, “extra-intestinal”, “extrajurídico”, “extra-oficial”. Esse prefixo só se liga com hífen a palavras iniciadas por vogal, “h”, “r” ou “s”. A exceção é “extraordinário” (“ordinário” é iniciada por vogal, mas não há hífen em “extraordinário”). E é justamente o adjetivo “extraordinário” o pai da forma reduzida “extra”. Como “extra” significa “fora de”, “extraordinário” significa “fora do ordinário”, ou seja, fora do que é comum, normal, ordinário. Por ser grande, a palavra “extraordinário” não fugiu de um processo lingüístico implacável: a redução. Com isso, o prefixo passou a ter também o sentido do adjetivo. Nesse caso, sua flexão é normal, como a de um adjetivo qualquer: “hora extra”, “horas extras”. Em tempo: quando usado como prefixo, nada de flexioná-lo. O plural de “extra-oficial” é “extra-oficiais”; o de “extra-sístole” é “extra-sístoles”.
