March 2005 Archives
Bem-te-vi ou Triste-vida: pássaro da família dos tiranídeos
Numa manhã de sábado, igual a tantas outras, nem mais fria nem mais quente, nem mais ensolarada nem mais chuvosa, foi numa manhã assim que ela tomou a decisão.
Não pensou muito. Na verdade, nem pensou. Simplesmente decidiu, num assomo de verdade, assim como devem ser tomadas as decisões importantes na vida.
Sem parar para se questionar, sem dar tempo a si própria de mergulhar nos labirintos dos sentimentos, nos desvãos dos receios, nas armadilhas da culpa, em toda aquela trança de urzes que se enrola, enrola, enrola até que não se sabe mais porquê.
Foi assim, num ato simples, despojado, inesperado, que decidiu: iria embora, naquele mesmo dia, naquela mesma hora.
Subiu até o quarto, tirou a mala do fundo do armário e abriu-a em cima da cama de casal. Estranhamente, não tinha vontade de levar nada. Nem o vestido azul, quase novo, que usara no último Natal, naquele Natal em que fingiram ainda gostar um do outro, sentados de mãos dadas junto ao resto da família, ao redor da árvore que acendia e apagava intermitente. Nem o conjunto rosa, também de pouco uso, que estreara quando foram padrinhos da sobrinha, ela só pensando durante toda a cerimônia, o que será que vai acontecer na vida desses dois, que agora se acham tão felizes, tão felizes... Felicidade, palavra mais estranha, ambígua, felina, lagartixa, camaleão, a mais subjetiva de toda a subjetividade, o que quer dizer, afinal de contas?
Juntou umas poucas coisas, sem se deter na escolha, um mínimo possível de passado para carregar na mala que a levaria embora.
Embora para onde? Não saberia dizer, nem lhe importava. Melhor não pensar, senão as idéias intrincadas davam um jeito de se cruzar e descruzar, impedindo o julgamento.
Carta. Foi isso que lhe ocorreu enquanto acabava de arrumar a mala. Tantas vezes invejara as cartas que ele a encarregava de levar todas as semanas à caixa do correio. Assim que as depositava, sentia uma angústia imensa. Elas ficariam aprisionadas só por algum tempo para depois seguir seu rumo, fosse lá qual fosse.
Pensou em rabiscar algumas linhas, mas desistiu. Explicar o quê, agora que estava prestes a se transformar, ela própria, numa carta sem destino nem remetente. Simplesmente pegaria sua mala, sairia daquele quarto para sempre, desceria aquelas escadas para sempre, nunca mais ouviria o ranger do quinto degrau, nunca mais deixaria sua mão escorregar pelo corrimão, sentindo os veios da madeira até a pequena depressão que anunciava a curva final, nunca mais atravessaria o saguão até a porta de entrada, agora de saída, para ela aquela porta seria sempre de saída. Nem olharia para trás, nem uma vez sequer, para não ver o ipê que em menos de um mês se cobriria de flores, para não imaginar a cortina sendo afastado num dos cantos, onde ele certamente estaria espreitando, aguardando a sua volta. E também não ia querer ouvir o canto invocatório do Bem-te-vi encarcerado na gaiola, a frase repetida que por vezes soava alegre, Bem-te-vi, Bem-te-vi, mas em outras, tão triste, Triste-vida, Triste-vida. Antes de sair, abriria a porta da gaiola, deixaria a ave em liberdade e depois ganharia o mundo.
Foi assim mesmo que fez. Fechou a mala, saiu do quarto, desceu as escadas, ouviu o ranger do quinto degrau, correu a mão pelo corrimão, sentindo os veios da madeira até a suave depressão que anunciava a curva final. Alcançou o saguão e antes de se dirigir para a porta de entrada, que dentro em pouco seria só de saída, parou diante da gaiola. Com infinita compaixão, olhou o pássaro imóvel no poleiro. Asas junto ao corpo, só os olhinhos ariscos pareciam ter vida. Espera, amigo, espera que logo, logo, você e eu não mais seremos prisioneiros.
Aproximou os dedos da grade, notando que tremiam um pouco. Abriu a portinhola, a princípio milímetro por milímetro, até que num rasgo de coragem, escancarou-a de vez. O coração alvoroçado, esperou que seu amigo-prisioneiro a precedesse na fuga para a liberdade.
Mas a ave não se mexeu. Do poleiro devolveu-lhe o olhar, os olhos inquietos. Depois, moveu o pescoço várias vezes, em pequenos movimentos espasmódicos, inclinou a cabeça preta e amarela para um lado, abriu o bico e deixou escapar o refrão de sempre, desta vez quase um grito inconformado, Triste-Vida, Triste-Vida, Triste-Vida.
Jeanette Rozsas
Ilka Brunhilde Laurito
Mal amanheço
e já me viste?...
— Bem-te-vi!
Saíste do sonho
em que eu jazia
ovo, ave e ninho?...
— Bem-te-vi!
E o que viste
na floresta labiríntica
em que a única árvore vsível
é a de enigmas?...
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Cantas para o sol
de graça,
pássaro altruísta?...
Eu,
eu pago o meu direito à voz.
e cobram-me:
a água,
a luz,
o ninho,
o alpiste.
Ai, bem-me-viste:
gorjeios meus
saem caríssimos.
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Eu te abençôo,
irmão passarinho,
com as mãos franciscas
no espalmar das minhas:
— Bem-vistos sejam
os que só vêem
o que não é visto.
Tu não és o sabiá
que inspirou Golçalves Dias.
Nem estou em outros mares
a entoar canções de exílio.
— Bem-te-vi!
O meu chão não é lá: é aqui.
Mas teu grito me anuncia
essa terra que tu viste
e que eu não vi,
de que sou expatriada.
— Bem-te-vi,
ah, que saudade!
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Eu, também,
pássaro ativo,
me cumpro o dia a dia
sobre este aplainado tronco
de exaurida seiva
a que o lavor chama de mesa
e onde canto! CANTO!
o que bem ou mal
eu vejo.
Muito mais:
o que não vejo,
bem-te-vi.
Teu olho está no bico?...
O meu, nos dedos:
são eles que percorrerm
as nervuras sensíveis
dos silêncios tangíveis
do meu grito:
— Bem-te-vida!
Abro o livro
Quero encontrar a magia perdida em tardes distantes
Tardes engarrafadas, de sorrisos e gargalhadas
Embaladas com música, anseios e amizade
As estrelinhas, as melodias dos pássaros, as músicas da Enya saem de dentro das páginas
É um mundo encantado, são palavras de magia... é um mundo em que viveria
Fecho o livro
É como se já tivesse vivido tudo muito antes
Aquele bem-te-vi que te acordou também me acordava na infância
É o canto que marca
É do que sinto mais saudade...
Andréa Pereira Leite
Ferreira Gullar
Mal cheguei e já te ouvi
gritar pra mim: bem te vi!
E a brisa é festa nas folhas
Ah, que saudade de mim!
O tempo eterno é presente
no teu canto, bem te vi
(vindo do fundo da vida
como no passado ouvi)
E logo os outros repetem:
bem te vi, te vi, te vi
Como outrora, como agora,
como no passado ouvi
(vindo do fundo da vida)
Meu coração diz pra si:
as aves que lá gorjeiam
não gorjeiam como aqui
Vinicius de Moraes
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Em homenagem ao meu bebê!
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914
É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
Nuno Júdice, Pedro, Lembrando Inês, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001, pág. 27.
|| Margarida *
