May 2005 Archives
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
(Ferreira Gullar)
Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerges das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma,
e pareces-te com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando te calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.
Gosto de ti quando te calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
(XV - Pablo Neruda)
Na voz de Neruda
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I like you calm, as if you were absent,
and you hear me far-off, and my voice does not touch you.
It seems that your eyelids have taken to flying:
it seems that a kiss has sealed up your mouth.
Since all these things are filled with my spirit,
you come from things, filled with my spirit.
You appear as my soul, as the butterfly’s dreaming,
and you appear as Sadness’s word.
I like you calm, as if you were distant,
you are a moaning, a butterfly’s cooing.
You hear me far-off, my voice does not reach you.
Let me be calmed, then, calmed by your silence.
Let me commune, then, commune with your silence,
clear as a light, and pure as a ring.
You are like night, calmed, constellated.
Your silence is star-like, as distant, as true.
I like you calm, as if you were absent:
distant and saddened, as if you were dead.
One word at that moment, a smile, is sufficient.
And I thrill, then, I thrill: that it cannot be so.
